Darwin e Olavo, o “filósofo” enganador

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Coerente com sua posição de carola empedernido e criacionista ferrenho, o pretenso filósofo Olavo de Carvalho mais uma vez atenta contra a nossa inteligência ao criticar de maneira absolutamente facciosa a obra, a teoria e a pessoa de Charles Darwin com seu artigo “Por quenão sou um fã de Charles Darwin”, publicado no Diário do Comércio em 20 de fevereiro de 2009.

Para começo de conversa, já no segundo parágrafo, ele diz que “Darwin não inventou a teoria da evolução: encontrou-a pronta, sob a forma de doutrina esotérica, na obra do seu próprio avô, Erasmus Darwin e como hipótese científica em menções inumeráveis espalhadas nos livros de Aristóteles, Sto. Agostinho, Sto. Tomás de Aquino e Goethe, entre outros”.

Aí começa o festival de mentiras. O avô de Darwin, Erasmus (1731 - 1802), é considerado até hoje um líder em uma comunidade intelectual que contribuiu muito para o surgimento da era industrial. Só para dar uma ideia de quem foi Erasmus Darwin, o sujeito era médico, matemático, físico, biólogo, botânico e poeta. É considerado até hoje o mais importante polímata inglês. O tal esoterismo que Olavo atribui à sua obra talvez se deva ao fato dele, como poeta tê-la colocado, em parte, em versos, como o “The Botanic Garden” onde ele entrosa descrições profundas com artifícios poéticos como gnomos, sílfides e ninfas, como é típico de qualquer poeta. Antonio Campos que o diga.

Outra coisa que pode ter induzido o “filósofo” ao erro infantil é o nome “Sociedade Lunar”, fundada por Erasmus, que, ao contrário que o sábio de araque possa ter imaginado ao interpretar o nome, não era composta por lunáticos e sim era uma entidade para discussão exclusiva de assuntos científicos, inclusive dando apoio financeiro aos iniciantes em pesquisas. Como eu não acredito que um sujeito espertinho como Olavo tenha errado dessa maneira, a única opção é ele achar realmente que somos imbecis de carteirinha. Talvez as “olavetes” que o seguem o sejam.

Quanto a Darwin se basear também nas hipóteses científicas de Aristóteles, Sto. Agostinho, Sto. Tomás de Aquino e Goethe, “entre outros”, o que há de mal? Por acaso ele se baseou em imbecis?

Prosseguindo, o auto-intitulado filósofo, afirma que “Ninguém mais, entre os autoproclamados discípulos de Darwin, acredita em seleção natural. A teoria da moda, o chamado neodarwinismo, proclama que, em vez de uma seleção misteriosamente orientada ao melhoramento das espécies, tudo o que houve foram mudanças aleatórias”. Nada mais absurdo. Eu só gostaria que Olavo citasse quem e de onde vieram essas ideias que ele chama de neodarwinismo. Talvez de uma meia dúzia de bitolados iguais a ele que, por força das evidências a favor de Darwin, tenham optado por um meio-termo entre o criacionismo e o evolucionismo para não ficarem muito mal na fita. Pelo visto Olavo vai ficar sozinho na parada e de filme queimado.

Talvez um desses malucos neodarwinistas de quem fala Olavo seja John Angus Campbell, citado por ele como um cara que “estuda os livros científicos sob o ponto de vista da sua estratégia de persuasão”. Ele é um professor de Retórica aposentado e membro do Discovery Institute, uma espelunca de cristãos conservadores dedicada à promoção da ideia do “design inteligente”. Mais um carola a desserviço da Ciência.

Como se pode notar, as referências de Olavo de Carvalho para legitimar seus delírios são completamente facciosas e seus argumentos totalmente distorcidos. Só faltou ele citar a Bíblia como fonte de informação científica.

Mas ainda não acabou o festival de besteiras. Diz o rei da mentira que “puramente farsesco, no entanto, é o esforço geral para camuflar a ideologia genocida que está embutida na própria lógica interna da teoria da evolução. Quando os apologistas do cientista britânico admitem a contragosto que a evolução ‘foi usada’ para legitimar o racismo e os assassinatos em massa, eles o fazem com monstruosa hipocrisia. O darwinismo é genocida em si mesmo, desde a sua própria raiz. Ele não teve de ser deformado por discípulos infiéis para tornar-se algo que não era”.

Isso é uma referência a dois parágrafos de uma outra obra de Darwin, “Origem do Homem”, em que ele faz observações supostamente racistas. Estranhamente, Olavo omite a origem dos textos, talvez com a intenção de confundir algum leitor desavisado, visto que seu artigo versa basicamente sobre a “Origem das Espécies”, mas como malandro demais sempre se atrapalha, fui buscar esses textos no Google e descobri que há milhares de referências a eles, exatamente como o espertinho os transcreveu: mutilados e convenientemente extraídos de um contexto mais amplo. Ei-los:

“Em algum período futuro, não muito distante se medido em séculos, as raças civilizadas do homem vão certamente exterminar e substituir as raças selvagens em todo o mundo. Ao mesmo tempo, os macacos antropomorfos... serão sem dúvida exterminados. A distância entre o homem e seus parceiros inferiores será maior, pois mediará entre o homem num estado ainda mais civilizado, esperamos, do que o caucasiano, e algum macaco tão baixo quanto o babuíno, em vez de, como agora, entre o negro ou o australiano e o gorila.”

“Entre os selvagens, os fracos de corpo ou mente são logo eliminados; e os sobreviventes geralmente exibem um vigoroso estado de saúde. Nós, civilizados, por nosso lado, fazemos o melhor que podemos para deter o processo de eliminação: construímos asilos para os imbecis, os aleijados e os doentes; instituímos leis para proteger os pobres; e nossos médicos empenham o máximo da sua habilidade para salvar a vida de cada um até o último momento... Assim os membros fracos da sociedade civilizada propagam a sua espécie. Ninguém que tenha observado a criação de animais domésticos porá em dúvida que isso deve ser altamente prejudicial à raça humana. É surpreendente ver o quão rapidamente a falta de cuidados, ou os cuidados erroneamente conduzidos, levam à degenerescência de uma raça doméstica; mas, exceto no caso do próprio ser humano, ninguém jamais foi ignorante ao ponto de permitir que seus piores animais se reproduzissem.”

Apesar dos textos mutilados, eu gostaria de saber aonde está o racismo neles? O que fica claro é que esses parágrafos, se usados indevidamente por racistas ou por mentes perturbadas como a de Olavo podem servir aos seus propósitos. Um outro aspecto a ser considerado é que há 150 anos ainda não havia o famigerado “politicamente correto” e, principalmente, a Ética vigente era outra, bem diferente da nossa. Em resumo, Darwin apenas resumiu a lei do mais forte, vigente eternamente na natureza.

O que mais chateia é o proto-filósofo ter a mania de tratar a todos como seres inferiores, uma vez que ele se acha o dono absoluto das verdades do mundo, quando ele não passa de um paranóico que se alimenta de conhecimentos mas não faz a digestão e que, como todo paranóico que se preza, tem uma legião de seguidores – os olavetes – que passam suas existências a papaguear o “mestre”.

Um sujeito que se auto-proclama filósofo e intelectual deveria, pelo menos, ter compromisso com a verdade e com a decência. Tentar ludibriar quem o lê com mentiras tão óbvias é imperdoável. Em vez de “filosofar” sobre o tema, Olavo deveria se preocupar um pouco mais com a ciência. Inteirar-se sobre os trabalhos de Cavalli-Sforza na genética é um bom começo.

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3 comentários:

  1. Olavo de Carvalho é um mistificador bem sucedido, não há mais como negar que o olavismo é uma seita, seus membros já receberam, do próprio Olavo, a denominação de "olavettes", com duas letras T para ficar mais "erudito". Lamentavelmente existem muitas pessoas respeitáveis contribuindo com essa mistificação, Olavo usa a boa fé das pessoas para realizar uma revolução silenciosa e invisível, onde o principal inimigo é a ciência. O profeta Olavo já anunciou que a ciência moderna resistirá apenas por mais algumas décadas, resta saber quanto tempo o olavismo resistirá como vão se sentir os "olavettes" depois perceberem que foram vítimas de um mistificador.

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  2. "A vaidade é o defeito que eu mais aprecio nos homens" - a última frase proferida pelo "sete peles" no filme "O Advogado do Diabo"

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  3. As discussões são infinitas.

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